Rafael Nadal, paternidade e dor.

Perder, doer, chegar em casa: Rafael Nadal, paternidade e dor

O atleta, o esporte, o amor e a dor. Como tudo isso se entrelaça?

Há uma cena que a maioria de nós já viveu, de um lado ou de outro: alguém chega em casa depois de um dia ruim, carregando alguma dor — física, ou não — e encontra, na porta, um filho pequeno. E alguma coisa muda. Não necessariamente a dor. Mas ela já não está sozinha.

Foi essa cena, contada por Rafael Nadal com uma simplicidade rara em atletas de elite, que me fez voltar a pensar sobre a relação entre dor crônica e paternidade — não como conceito, mas como ela acontece na vida de alguém que passou quase vinte anos negociando com o próprio corpo.

 

Uma negociação de quase duas décadas

Rafael Nadal tinha dezenove anos quando recebeu um diagnóstico que ameaçava sua carreira: síndrome de Müller-Weiss, uma doença rara que afeta o osso navicular do pé. Durante quase duas décadas, sua carreira profissional foi também uma negociação permanente com a dor.

Em 2022, essa negociação chegou a um dos seus pontos mais extremos: ele disputou a final de Roland Garros com o pé anestesiado, sem qualquer sensibilidade. Não foi a única vez que o corpo cobrou um preço alto por continuar. E, ainda assim, anos depois, olhando para trás, ele resumiu essa trajetória inteira com uma frase que evita tanto o heroísmo quanto o lamento: “o sofrimento era menor do que minha paixão e minha felicidade pelo que eu fazia.”

Não é a frase de alguém que venceu a dor. É a frase de alguém que encontrou, por muito tempo, motivo suficiente para conviver com ela.

 

O tempo que o corpo não tinha para oferecer

Em outubro de 2022, nasceu o primeiro filho de Nadal, em meio a um dos períodos de maior fragilidade física de sua carreira.

Em abril de 2024, em Madri, Nadal disse algo que talvez seja uma das frases mais honestas de toda essa história: “eu adoraria jogar um pouco mais e dar a ele uma lembrança minha jogando tênis… mas provavelmente não vou conseguir fazer isso acontecer.”

Ali está um desejo profundamente humano: permanecer tempo suficiente para que o filho pudesse guardar a memória de vê-lo jogar. E ali está também, sem rodeios, o limite: um corpo que já não tinha esse tempo para dar.

O filho precisava de anos para crescer e formar lembranças. O corpo de Nadal já não tinha esses anos para oferecer. Nenhuma quantidade de amor muda essa aritmética. E ele sabia disso — e disse.

 

O que continuava doendo, e o que existia ao lado disso

Meses depois, numa entrevista de televisão, Nadal falou sobre a paternidade de um jeito que evitava qualquer sentimentalismo fácil. Disse que, no tênis, o filho tinha “mudado para pior” — brincando sobre os resultados desde que ele nasceu. E então, sem pausa dramática, completou: tinha perdido partidas, estivera lesionado, e chegar em casa e ver o filho mudava seu humor.

Vale notar o que essa frase não diz. Ele não disse que a dor física diminuiu. Não disse que perder passou a doer menos. Não disse que o filho o ajudou a suportar o que antes era insuportável. Disse outra coisa, mais simples e, por isso mesmo, mais verdadeira: havia perdido, estivera lesionado e, ao chegar em casa e ver o filho, seu humor mudava. Uma coisa não precisava apagar a outra.

Duas coisas verdadeiras, uma ao lado da outra. Não é cura. Talvez seja companhia.

 

Sem conclusão, de propósito

Talvez a experiência de tantas famílias que convivem com dor crônica esteja mais perto dessa coexistência do que das histórias de “superação” que costumamos ouvir. A dor não pede licença para continuar doendo. Mas a vida, ao lado dela, segue oferecendo lugares para chegar — um filho na porta, um rosto que muda alguma coisa por dentro, mesmo quando nada muda por fora.

Rafael Nadal negociou com o próprio corpo durante quase vinte anos. Por muito tempo, encontrou maneiras de continuar. Até que o corpo já não lhe permitiu competir como queria.

Sabemos o que ele próprio disse: que o sofrimento era menor que a paixão; que seu desejo de ser lembrado pelo filho em quadra esbarrou num limite que nenhuma vontade movia; e que, depois de perder e estar lesionado, chegar em casa e ver o filho mudava seu humor.

Perder. Doer. Chegar em casa.

A dor não havia desaparecido. Mas já não estava sozinha.

 

Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
Acompanhe mais reflexões e conteúdos também nas minhas redes: LinkedIn, Instagram e Facebook.

Arquivos

O que a dor crônica rouba além do corpo

O que a dor crônica rouba além do corpo

O que a dor crônica rouba além do corpo Como o estigma, a descrença e o isolamento afetam a identidade,…

A normalização da dor do idoso por amor

A normalização da dor do idoso por amor

Dor crônica no idoso: quando a família normaliza o sofrimento por amor Por que frases carinhosas como “é da idade”…

Rafael Nadal, paternidade e dor.

Rafael Nadal, paternidade e dor.

Perder, doer, chegar em casa: Rafael Nadal, paternidade e dor O atleta, o esporte, o amor e a dor. Como…

Ser pai com o corpo limitado – O que a ciência diz?

Ser pai com o corpo limitado – O que a ciência diz?

Paternidade e dor crônica: o que muda quando o corpo do pai dói Quando ele não se reconhece mais como…