Paternidade e dor crônica: o que muda quando o corpo do pai dói
Quando ele não se reconhece mais como pai por causa da limitação física
Há um gesto simples que muitos pais fazem sem pensar: erguer o filho no colo, girar, ouvir o riso. Para alguns pais, esse gesto nem sempre é possível — não por falta de vontade, mas porque a dor não permite.
Essa perda específica — a de um gesto físico do dia a dia — costuma pesar mais do que parece. Um pai que não consegue carregar o filho não está lidando só com uma limitação do corpo. Está lidando também com uma pergunta sobre quem ele é como pai.
O que a masculinidade tradicional ensina
Muitos de nós crescemos ouvindo, de forma direta ou indireta, que ser homem é não precisar de ninguém, que força é aguentar calado, e que um bom pai é, antes de tudo, estar disponível para carregar, trabalhar e sustentar a família.
A dor crônica desafia diretamente essa ideia. Um estudo de Blackbeard e Aldous (2021), com homens atendidos em uma clínica de dor, mostra um padrão que se repete: alguns tentam manter, a qualquer custo, a aparência de que nada mudou, o que costuma vir acompanhado de sofrimento silencioso. Outros vivem a limitação como um fracasso pessoal, uma prova de que deixaram de ser úteis. Há ainda um terceiro grupo, menor, que encontra outro caminho: continua se sentindo pai de forma plena, deslocando o que significa ser forte — da força física para a capacidade de perseverar e de continuar presente apesar da dificuldade.
O que muda, e o que não precisa mudar
Existe uma diferença entre as tarefas físicas que um homem realiza e a função de pai que ele deseja cumprir. A tarefa é carregar, correr atrás, erguer. A função é orientar, tranquilizar, mostrar, pelo exemplo, como se atravessa uma dificuldade sem deixar de cuidar de quem está por perto.
A dor crônica compromete as tarefas. Um estudo de Wilson e Fales (2015), com pais com e sem dor crônica, mostra que os pais com dor relatam menos envolvimento físico direto, mais irritabilidade em dias ruins e, quase sempre, sentimento de culpa por isso. Mas o mesmo estudo mostra outro lado: a maioria desses pais também relata um ganho nessa experiência — um aumento da empatia em relação aos próprios filhos. A perda de uma coisa não elimina o desenvolvimento de outra.
O risco para os filhos
Filhos de pais com dor crônica correm, sim, um risco um pouco maior de apresentar queixas de dor e algumas dificuldades emocionais. Uma revisão de Higgins e colaboradores (2015), reunindo dados de mais de 4,6 milhões de descendentes, confirma esse risco. Mas é um risco estatístico, não uma sentença individual — e não acontece do mesmo jeito em todas as famílias.
O que parece fazer diferença é algo relativamente simples: se o pai fala sobre a própria dor ou a esconde. O silêncio protege por um tempo, mas cobra o preço depois: a criança percebe que algo está errado e, sem explicação, cria uma culpa que não é dela. A palavra, dita na medida certa para a idade de quem escuta, faz o efeito contrário: transforma um mistério em algo que pode ser compreendido, e até acompanhado com afeto.
Normal, ou apenas nunca questionado?
A limitação física de um pai com dor crônica é real e não deve ser minimizada. Mas a ideia de que um corpo limitado pela dor produz automaticamente um pai ausente não se sustenta nos dados. É uma crença que herdamos, não um fato confirmado pela ciência.
Vale perguntar, então: quando achamos que um pai “não é mais o mesmo” por causa da dor, estamos observando algo que de fato se perdeu, ou estamos apenas repetindo uma expectativa que nunca foi questionada?
Referências
Blackbeard D, Aldous C. Chronic pain and masculine identity: life-world interviews with men at a South African Pain Clinic (2021).
Wilson AC, Fales JL. Parenting in the context of chronic pain: a controlled study of parents with chronic pain (2015).
Higgins KS, Birnie KA, Chambers CT, et al. Offspring of parents with chronic pain: a systematic review and meta-analysis of pain, health, psychological, and family outcomes (2015).
Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
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