Serena Williams: A campeã que sofre de enxaqueca
Quando a dor não aparece nas fotos e ninguém acredita que você está sofrendo
Havia uma cena que se repetia na vida de Serena Williams. Ela perdia um jogo. Entrava na coletiva de imprensa. A pergunta vinha inevitável: “O que aconteceu?” E ela ficava em silêncio sobre a verdade — porque a verdade era que havia competido com enxaqueca, e dizer isso seria ouvido não como explicação, mas como desculpa.
“Você não pode entrar numa coletiva de imprensa onde a mídia pergunta: ‘Bem, o que aconteceu?’ e responder: ‘Eu estava tendo um ataque de enxaqueca'”, ela disse décadas depois, quando finalmente falou sobre isso publicamente. “Eu me acostumei a jogar apesar da dor.”
Serena Williams ganhou 23 títulos de Grand Slam. E durante boa parte desse tempo, competiu com uma doença que ninguém ao redor conseguia ver.
O problema da prova
A enxaqueca é uma condição neurológica séria. Causa dor intensa e latejante, sensibilidade extrema à luz e ao som, náusea, tontura, alterações visuais. Um ataque pode durar horas ou dias. Após o ataque, muitas pessoas passam por um período de fadiga profunda, dificuldade de concentração, sensação de esgotamento.
Mas nada disso aparece no corpo de fora para dentro.
Não há inchaço. Não há hematoma. Não há nada que uma câmera possa registrar ou que um observador possa ver. E numa cultura que aprendeu a reconhecer sofrimento pelo que é visível — a perna engessada, o braço imobilizado, a cicatriz — a ausência de evidência visual cria um problema imediato: a dor precisa ser provada antes de ser acreditada.
Foi exatamente isso que Serena descreveu sobre seu pai e treinador, que não compreendia sua sensibilidade ao sol durante os ataques: “As pessoas dizem: ‘Não vejo inchaço. Não vejo hematoma. Aguenta firme.'”
O que acontece quando a dor não é acreditada
Quando alguém diz que está sofrendo e não é acreditado, o impacto vai além do momento imediato de constrangimento. Algo mais profundo começa a acontecer.
A pessoa aprende que sua percepção interna não é suficiente. Que o que sente no próprio corpo não conta como evidência. Que para ter direito ao cuidado — ou simplesmente ao respeito — precisa apresentar uma prova que a doença não oferece.
Com o tempo, esse aprendizado se instala. A pessoa começa a duvidar da própria dor. A se perguntar se está exagerando. A adiar a busca por ajuda porque antecipa que não será levada a sério. A esperar até que a dor seja insuportável — porque só nesse ponto ela parece “grave o suficiente” para justificar atenção.
Serena descreveu esse padrão com precisão: ela às vezes esperava tanto para tomar o medicamento que a crise já havia avançado além do ponto em que o tratamento seria eficaz. “Eu estava apenas sendo forte, tentando lidar com a dor. E às vezes esperava tempo demais e era tarde demais. Então acabava sofrendo mais tempo.”
Ser forte, nesse contexto, significava tratar o próprio sofrimento como algo que não merecia resposta imediata.
O silêncio como estratégia de sobrevivência
Quem vive com uma doença invisível aprende cedo que falar sobre ela tem um custo social. O risco não é imaginário — é baseado em experiências reais de não ser acreditado, de ser visto como alguém que exagera, de ter a dor interpretada como fraqueza ou como tentativa de manipulação.
Diante desse risco, o silêncio deixa de ser passividade e passa a ser uma estratégia ativa de proteção. Não digo, não exponho, não me arrisoco ao descrédito.
No caso de Serena, essa estratégia durou décadas. Ela não falou sobre enxaqueca após derrotas. Não mencionou ataques em entrevistas. Manteve a doença como experiência privada, gerenciada sozinha, invisível para o mundo que a observava.
Só em 2020, quando a pandemia e a maternidade tornaram a dor insuportável demais para continuar gerenciando sozinha, ela falou. E a resposta foi imediata: milhares de pessoas que também viviam com enxaqueca reconheceram a experiência. “De uma guerreira da enxaqueca para outra, obrigada”, escreveu uma seguidora.
A gratidão revelava algo importante: havia uma comunidade inteira que havia sofrido em silêncio, esperando que alguém com visibilidade nomeasse o que elas viviam.
O que o descrédito custa
O custo do descrédito sistemático não é apenas emocional — embora seja também emocional. É clínico.
Pessoas com doenças invisíveis que antecipam não ser acreditadas demoram mais para buscar diagnóstico. Aderem menos ao tratamento. Chegam às consultas médicas minimizando os próprios sintomas, porque aprenderam que relatar com precisão o que sentem será recebido com ceticismo. E frequentemente chegam ao cuidado especializado apenas quando a dor já comprometeu de forma severa a qualidade de vida — não porque não sofriam antes, mas porque sofriam numa cultura que não reconhecia esse sofrimento como legítimo.
A enxaqueca afeta cerca de uma em cada cinco mulheres. É uma das condições neurológicas mais prevalentes no mundo. E ainda hoje é frequentemente descrita por quem vive com ela como uma condição que as pessoas ao redor não levam a sério.
Essa não é uma coincidência. É o resultado de um sistema que reconhece sofrimento visível e desconfia do invisível.
O que muda quando a dor é acreditada
Quando Serena Williams disse publicamente “a enxaqueca é invisível e as pessoas me disseram para aguentar firme”, ela não estava apenas contando sua história. Estava nomeando, com autoridade pública, algo que milhões de pessoas haviam vivido sem poder dizer.
Isso tem um nome clínico: validação. E a validação não é um gesto de cortesia — é uma condição para que o cuidado seja possível.
Quem vive com dor invisível não precisa de pena. Precisa que sua experiência seja recebida como real. Que o testemunho do próprio corpo seja suficiente. Que não precise apresentar prova visível para ter direito ao cuidado.
A dor que não aparece nas fotos é tão real quanto a que aparece. O que muda é o quanto a cultura ao redor está disposta a acreditar nisso.
Aguenta firme. Como se a dor fosse uma questão de disposição.
Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
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