Solidão na terceira idade e dor crônica: entenda a relação

Solidão na Terceira Idade: Por Que Sentir-se Só Dói Mais do que Estar Sozinho

 

Quando alguém quer saber como está um parente idoso, a pergunta quase sempre é a mesma. Ele mora sozinho? Quantas vezes por semana recebe visita?

São perguntas de contagem. Fáceis de responder, fáceis de anotar numa ficha, fáceis de tranquilizar quem pergunta. O problema é que elas deixam de fora justamente o que mais parece pesar.

Não é estar sozinho. É sentir-se sozinho. A diferença parece sutil. Mas ela muda bastante coisa, inclusive o quanto o corpo dói.

 

Duas perguntas diferentes, uma resposta que não é igual

Estar sozinho é uma questão que dá para medir. Quantas pessoas moram na casa, quantas visitas por semana, quantos telefonemas.

Sentir-se sozinho é outra coisa. É a sensação de que os laços que ainda existem não bastam mais, seja em quantidade, seja em profundidade. Alguém pode morar cercado de gente e se sentir muito só; outra pessoa pode morar sozinha e não sofrer com isso.

Um levantamento recente com quase 8 mil idosos brasileiros mostrou que quase metade relata algum grau de solidão, às vezes ou com frequência. Um número bem maior do que o de idosos que moram sozinhos no país. São coisas diferentes, mesmo se cruzando de vez em quando.

 

Quando a solidão chega ao corpo

Pesquisas dos últimos anos têm perguntado se esse sentimento de solidão se relaciona com a dor crônica, tão comum na terceira idade. E a resposta parece ser sim, numa via de mão dupla.

Quem relata mais solidão tende a desenvolver mais dor com o passar do tempo. E quem já convive com dor tende a relatar mais solidão depois. Isso apareceu em estudos feitos em países bem diferentes entre si, o que sugere que não é coisa de um lugar só.

Curiosamente, quando os pesquisadores medem isolamento e solidão separadamente na mesma pessoa, é a solidão que aparece mais ligada à dor. Não o fato de morar sozinho.

Isso muda uma coisa prática para quem convive com um idoso. Perguntar “você mora sozinho?” não é a mesma coisa que perguntar “você se sente sozinho?”. A segunda pergunta parece dizer mais sobre o risco de mais dor do que a primeira.

 

Nem todo mundo é afetado do mesmo jeito

O quanto isso pesa parece variar bastante entre grupos diferentes. Idade, gênero e contexto cultural parecem mudar tanto a chance de sentir solidão quanto a força com que ela se liga à dor.

Isso reforça algo que quem trabalha com dor crônica já sabe. Não existe uma única história de solidão na terceira idade. O histórico de vida e a rede de apoio de cada pessoa importam tanto quanto os números que aparecem nas pesquisas.

 

Um ciclo que se alimenta sozinho

Por que a solidão chegaria a produzir dor no corpo? Uma explicação que vem sendo estudada é que sentir-se sozinho parece manter o corpo num estado de alerta baixo, quase como se ele nunca conseguisse relaxar de verdade. Isso parece deixar a dor mais fácil de sentir.

E o caminho inverso também acontece, embora de um jeito mais sutil do que se imagina. Muita gente tem alguma atividade regular que sustenta o convívio: uma partida de cartas, uma caminhada com vizinhos, o culto de domingo. Quando a dor chega, essas atividades costumam ser as primeiras a sair da rotina.

O interessante é que a rede social de uma pessoa às vezes até cresce depois que a dor começa, porque outras pessoas se mobilizam para ajudar. O problema é que a sensação de proximidade com essa rede diminui, mesmo ela sendo maior. É possível ficar cercado de gente e, ainda assim, se sentir mais distante do que antes.

 

O que parece ajudar

Se a solidão contribui para a dor, faz sentido perguntar o que ajuda a reduzir as duas coisas ao mesmo tempo.

Estudos apontam para atividades que sustentam o senso de pertencimento: ir ao teatro, participar de um grupo, manter um compromisso social fixo. O efeito parece mais forte sobretudo entre quem já estava mais isolado, o que sugere que pequenas mudanças podem valer muito para quem menos tem.

Companhia física sozinha não resolve tudo. O que parece proteger de verdade é a sensação de pertencer a alguma coisa, um sentimento que a companhia por si só nem sempre entrega.

Isso explica por que colocar um idoso numa roda de conversa nem sempre basta. Se aquele encontro não faz sentido para ele, se não reconstitui algo que ele reconhece como seu, o efeito de proteção tende a ser bem menor. O que parece funcionar é resgatar, mesmo que em outro formato, aquilo que a pessoa já valorizava antes.

 

Uma pergunta melhor para fazer

Da próxima vez que quiser saber como está um idoso da família, talvez valha perguntar outra coisa além de com quem ele mora.

Vale perguntar o que ele deixou de fazer. E com quem.

É uma pergunta menos fácil de responder numa ficha. Não tem uma resposta que caiba num número.

Mas é a que chega mais perto do que realmente importa. E é a que abre espaço para reconstruir, ainda que em outra forma, aquilo que a dor foi tirando aos poucos.

 

 

Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
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