Dor crônica e saúde: é possível viver bem quando a dor não passa?

Dor crônica e saúde: é possível viver bem quando a dor não passa?

Ter saúde com dor crônica: quando viver bem não depende só de você

 

Existe uma pergunta que quase ninguém faz a quem vive com dor crônica: você tem saúde? A gente pergunta sobre a dor, o remédio, o exame. Raramente pergunta sobre a vida que continua acontecendo ao redor dela.

Vale a pena fazer essa pergunta.

As pesquisas mais recentes sugerem que ter saúde e sentir dor podem andar juntos, e que isso depende menos da força de vontade do que costumamos imaginar.

 

Saúde e dor em trilhos diferentes

Numa pesquisa feita na Holanda, cerca de um terço das pessoas com dor nas articulações estava bem emocionalmente, satisfeita com a vida, com propósito e vínculos. A proporção foi praticamente a mesma entre quem não tinha dor.

Elas tinham mais risco de ansiedade e depressão, é verdade. Mesmo assim, uma coisa não apagava a outra. No Canadá, entre pessoas com artrite e dor que limitava o dia a dia, mais da metade tinha boa saúde mental.

Idosos que convivem com dor e se consideram saudáveis costumam resumir essa saúde numa palavra: continuar. Continuar cuidando da casa e dos netos.

 

Quando o número da dor não baixa

Muita gente avalia o tratamento pela nota da dor. Se o número não cai, parece que nada funcionou.

Os estudos sugerem olhar para outros sinais. Pessoas que deixam de lutar contra a dor a qualquer custo tendem a retomar o que valorizam, mesmo quando a dor continua parecida. Num grande estudo feito na Suécia, essa mudança de postura foi o que mais pesou nos resultados um ano depois.

Aliviar a dor continua importando, e muito. Só que a vida não precisa ficar suspensa à espera de que a dor vá embora.

 

O peso da palavra aceitação

Sei que a palavra aceitação incomoda. Numa pesquisa, uma pessoa a chamou de podre. Outra disse que não deveria ter que aceitar dor nenhuma, que só queria se livrar dela.

Esse incômodo tem razão de ser. Os estudos sugerem que aceitar costuma ser um caminho com idas e voltas, mais fácil para quem tem apoio e dinheiro.

Quando a aceitação vira obrigação, ela repete o problema que queria resolver. A pessoa deixa de ser cobrada por não controlar a dor e passa a ser cobrada por não aceitá-la.

 

O trabalho que ninguém vê

Quem vive com dor faz um esforço enorme todos os dias. Escolhe a vaga em que dá para abrir bem a porta do carro, ajusta o ritmo da caminhada, calcula quanto cada passeio vai custar em dor.

Pessoas com dor no joelho entrevistadas numa pesquisa repetiam uma frase: ainda sinto dor, mas ainda caminho. Quando a dor é tratada como coisa da idade, esse trabalho desaparece junto com a queixa.

Os programas que ensinam a pessoa a cuidar da própria dor mostram resultados modestos. Parte de quem participa escuta a proposta como um recado: agora é com você.

 

Sono, comida e movimento em boa companhia

Hábitos saudáveis tendem a ajudar, com resultados menores do que se costuma prometer. Quando pesquisadores perguntaram aos participantes de um programa para artrite o que tinha feito diferença, a resposta mais comum foi o grupo.

Os participantes falaram de se sentir ouvidos e de estar com gente na mesma situação. Falaram também do companheiro que mudou a alimentação junto. Os hábitos parecem se sustentar quando servem ao que a pessoa valoriza e quando a família participa.

 

O lugar onde a vida acontece

Alguns ambientes parecem favorecer que a dor se mantenha. Trabalho sem pausa, dinheiro curto, casa cheia de escadas, falta de transporte e solidão entram nessa conta.

Numa pesquisa com povos indígenas, refugiados e outros grupos que sofrem discriminação, a dor aparecia misturada com experiências de violência, com o medo de ser visto como alguém que só quer remédio e com a dificuldade de manter o emprego.

De pouco adianta indicar uma academia gratuita para quem não tem como chegar até lá nem com quem deixar os filhos. Pessoas que vivem bem com dor falam de coisas concretas: horários flexíveis, uma casa adaptada, uma renda garantida, a companhia de um bicho de estimação.

 

Ser levado a sério

Nos relatos de quem vive bem com dor, uma condição aparece com frequência: a parceria com os profissionais. São profissionais que procuraram conhecer a pessoa e respeitaram seu ritmo.

Quando isso falta, a raiva costuma aparecer. Numa pesquisa, a maioria das pessoas que chegavam a um centro de dor relatava raiva, sobretudo de si mesmas. Os pesquisadores consideraram essa raiva compreensível, depois de tantos exames sem resposta e tratamentos que não funcionaram.

Ouvir que a dor é real costuma trazer alívio. Os profissionais também trabalham com limites de tempo e de estrutura, porque a dor crônica ainda escapa a muitas explicações. É nesse terreno que paciente e profissional se encontram.

 

Para mim, promover saúde com dor começa por uma pergunta nova. Além do que a pessoa pode fazer, o que precisa mudar ao redor dela?

Se você vive com dor e sente que a sua vida ficou do tamanho dela, essa sensação faz sentido. A saúde também pode ser construída com outras pessoas ao redor, um passo de cada vez.

 

Referências

  • Trompetter et al. Flourishing in two chronic pain samples. Front Psychol. 2019.
  • Macgregor et al. An ecosystem of accepting life with chronic pain. Br J Pain. 2024.
  • Ong et al. The hard work of self-management: living with chronic knee pain. Int J Qual Stud Health Well-being. 2011.
  • Bérubé et al. Living successfully with chronic pain. J Pain. 2025.

 

Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
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