Dor neuropatica

Dor neuropática: a dor que as palavras não alcançam

Dor neuropática: aspectos psicológicos, sintomas difíceis de descrever e como cuidar além do corpo

A dor neuropática é difícil de descrever, muda a relação com o corpo e costuma ser posta em dúvida. Entenda o lado psicológico dessa dor e como cuidar dele.

 

Brasa viva dentro da pele. Uma lança em fogo. Andar sobre cascalho. Essas são algumas das imagens que pessoas com dor neuropática usam quando tentam explicar o que sentem, porque as palavras comuns da dor não dão conta.

Essa dor atinge entre 7 e 10 em cada 100 adultos e, mesmo assim, segue pouco compreendida fora dos serviços especializados. Neste texto, quero mostrar o que as pesquisas revelam sobre o lado psicológico dessa experiência.

 

Uma dor que nasce no próprio sistema de alarme

A dor neuropática surge de uma lesão ou doença no próprio sistema nervoso. A rede que deveria avisar quando algo machuca passa a disparar sinais por conta própria.

Por isso, ela costuma desobedecer à lógica que a gente aprendeu. Pode aparecer depois de uma cirurgia, de um herpes-zóster, do diabetes ou da quimioterapia, e continuar muito tempo depois de a lesão ter sarado.

Ela também vem acompanhada de insônia, ansiedade e depressão com mais frequência do que outras dores crônicas.

 

Quando faltam palavras

Queimação, choque, formigamento. São os termos que os profissionais costumam usar, e muitas pessoas sentem que eles não chegam perto de dizer o que realmente se passa.

Em uma pesquisa com atletas paralímpicos com lesão na medula, 60% tinham dificuldade de descrever os próprios sintomas com suas palavras. Quando recebiam uma lista para escolher, reconheciam muito mais sensações, como se tomassem emprestado um vocabulário que não tinham.

Mais da metade desses atletas chegou a duvidar da própria dor, mesmo com diagnóstico confirmado. Quando não se consegue explicar o que sente, até a própria experiência começa a parecer duvidosa.

As metáforas aparecem justamente aí. Elas são a forma mais honesta de comunicar uma dor para a qual a língua ainda não tem palavra pronta.

 

Um corpo que parece de outra pessoa

Em algumas formas de dor neuropática, a parte afetada passa a parecer estranha. Há quem descreva o braço ou a perna como um corpo estranho, separado do resto, e quem evite olhar para ele ou o esconda atrás de uma almofada.

Quando pesquisadores pedem a essas pessoas que fechem os olhos e imaginem o membro dolorido, partes inteiras somem da imagem mental.

Algo parecido acontece depois da quimioterapia. Pessoas que perderam a sensibilidade nas mãos e nos pés contam que eles não parecem mais seus, e um gesto simples como segurar um neto no colo deixa de ser sentido por inteiro.

Outras, anos depois de curadas, continuam sentindo mãos e pés o tempo todo. Antes da doença, eles funcionavam sem chamar atenção. Agora, o formigamento e a dormência lembram a cada momento que estão ali.

 

Uma dor que ninguém vê

A dor neuropática quase nunca deixa marcas visíveis. Isso expõe quem convive com ela a um risco constante: ter a própria palavra posta em dúvida.

Pessoas com síndrome dolorosa regional complexa contam que já ouviram de profissionais que a dor era psicossomática, e que tiveram o membro dolorido tocado sem consentimento. Outras descrevem uma dor “sem rosto”, que ninguém vê por fora, e a sensação de ter que provar o tempo todo que ela existe. Algumas perderam amizades por isso.

O medo de parecer um fardo leva muita gente a falar menos da dor do que deveria, até com a equipe de saúde. Entre pessoas mais velhas, a dor e a imprevisibilidade das crises também afastam do convívio social e desgastam a vida a dois.

 

Por que a mesma lesão pesa diferente

Duas pessoas com lesões parecidas podem ter experiências de dor muito diferentes. A explicação mais consistente nas pesquisas está na catastrofização: a tendência de enxergar a dor pelo cenário mais ameaçador e de se sentir sem recursos diante dela.

Quem tem esse padrão mais intenso costuma responder pior aos medicamentos e abandonar o tratamento com mais frequência. Esse jeito de pensar pode ser reconhecido e trabalhado com acompanhamento psicológico.

 

A dor pesa mais que a lesão

Uma pesquisa quis entender se o sofrimento psicológico de pessoas com lesão na medula vinha da lesão em si ou da dor neuropática. Para isso, comparou pessoas com lesão e dor, pessoas com lesão sem dor e pessoas sem lesão, como referência. Ansiedade, depressão e estresse apareceram aumentados só em quem tinha dor.

A angústia de quem sente essa dor é, portanto, uma resposta compreensível a uma experiência difícil, e também precisa ser cuidada.

 

Cuidar além do corpo

Os tratamentos para a dor neuropática ainda estão longe de ser sob medida para cada pessoa. Mas o que já existe para a dimensão psicológica funciona. Em um programa voltado a pessoas com neuropatia diabética dolorosa no Reino Unido, 60% dos participantes tiveram melhora importante na depressão, e 72% passaram a aceitar melhor a dor.

A IASP (International Association for the Study of Pain), Associação Internacional para o Estudo da Dor, escolheu 2026 como o Ano Global da Dor Neuropática. Que esse reconhecimento chegue também à experiência de quem sente: ser ouvido sem precisar provar o quanto dói já é parte do tratamento.

 

 

Referências

  • Todd K et al. “I don’t know the correct way to describe it”. BMJ Open Sport Exerc Med. 2024.
  • Antunovich D et al. “I don’t identify with it”. Pain Med. 2021.
  • Gruener H et al. Psychological distress and central neuropathic pain in spinal cord injury. Spinal Cord. 2018.
  • Twiddy H et al. Psychological aspects of painful diabetic neuropathy. Diabetes Ther. 2021.

 

Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
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