dor e empatia

Dor e Empatia: Por que sentimos a dor de quem amamos

Empatia: Por que a dor de quem amamos também dói em nós

 

Um aperto no peito ao ver alguém que você ama mancar ou hesitar antes de um movimento tem explicação na biologia: o seu próprio sistema nervoso reage diante da dor que você testemunha, sem que nenhuma dor realmente seja sua.

Pesquisas em neurociência mostram que essa reação acontece porque uma parte do cérebro que participa da sua própria dor entra em atividade só de presenciarmos a dor de outra pessoa. Essa parte do cérebro cuida da parte emocional da dor, do quanto ela pesa, não de onde ela dói no corpo.

É por isso que o aperto existe mesmo sem nenhum ferimento: ela nasce do lado emocional da dor, compartilhado entre quem sente a dor e quem a presencia.

 

Por que a dor do outro nos atravessa

Sentir algo com alguém envolve mais do que emoção. Pesquisadores descreveram quatro ingredientes por trás da empatia: perceber algo em comum entre o próprio sofrimento e o do outro, saber com clareza que quem sofre é o outro, conseguir se colocar no lugar do outro e controlar a própria reação para que ela não tome conta da cena.

Além disso, sentir empatia por quem sofre pode até mudar a forma como a própria pessoa sente dor. Em um experimento, voluntários que foram induzidos a um estado de maior empatia ao observar outra pessoa com dor relataram mais sensibilidade quando, depois, receberam eles próprios um estímulo de calor.

Portanto, sentir empatia por alguém vai além de simplesmente registrar o sofrimento dessa pessoa: pode se infiltrar na própria experiência de quem presencia o sofrimento.

 

Por que às vezes não sentimos nada diante da dor do outro

A empatia varia de pessoa para pessoa e de situação para situação. Depende, em parte, de quem está sofrendo: as pessoas costumam acreditar que certos indivíduos merecem ser levados mais a sério do que outros, e isso muda a quantidade de empatia que sentem por eles. Muitas vezes, fazemos esses julgamentos sem perceber.

Depende também de como a dor é comunicada: quando alguém expressa só com palavras sua dor, sem apresentar nenhuma outra prova ou reação, ela tende a ser menos acreditada do que quando faz gestos ou caretas de dor, mesmo que as duas dores sejam iguais.

Quando alguém tem dor, é possível que a empatia daqueles que o cercam diminua ou se apague, e o nome disso é extinção da empatia. Isso ocorre porque faltam sinais visíveis de lesão ou ferimento e porque os modelos científicos sobre como funciona a dor crônica ainda são incompletos, o que dá espaço para que preconceitos sociais preencham essa lacuna. Fato é que um dia de reação mais fraca não quer dizer que você cuide menos ou ame menos.

 

Empatia também desgasta quem cuida profissionalmente

Isso também acontece fora de casa, com quem cuida por profissão. Quando o profissional de saúde sente empatia pelo paciente, isso costuma vir acompanhado de pacientes mais satisfeitos, que seguem melhor o tratamento, e de profissionais que se sentem melhor no trabalho.

Mas essa empatia também tem um limite que muda dependendo de como cada um a sente.

Há pelo menos duas formas de sentir empatia: uma mais racional, que é entender o que o outro sente sem necessariamente sentir junto; outra mais emocional, que é sentir junto integralmente. A primeira parece proteger um pouco contra o esgotamento profissional, enquanto a segunda não protege da mesma forma por si só.

Isso ajuda a entender por que sentir empatia não protege automaticamente contra o desgaste profissional: o efeito parece depender de como essa empatia é vivida e regulada. É preciso conseguir manter uma distância que permita continuar cuidando sem ser tomado pelo sofrimento do outro.

Para os profissionais da saúde é importante saber que essa capacidade de modular a empatia pode ser desenvolvida com treino. Há programas que ensinam estes profissionais a utilizar a empatia a favor de seus pacientes e de si mesmos, com formação específica e acompanhamento ao longo da carreira.

 

O poder de uma palavra empática

Um campo de pesquisa ainda recente sugere algo que muitos cuidadores já vêm percebendo: a forma como alguém fala sobre a dor de outra pessoa pode influenciar a forma como esta dor é sentida. Estudos preliminares de ressonância magnética indicam que palavras empáticas de um profissional de saúde estão associadas a mudanças na atividade cerebral da dor do paciente, e que o cérebro de quem cuida e o cérebro de quem é cuidado podem entrar em sincronia durante esta interação.

São descobertas ainda iniciais que apontam para uma direção importante: o que se diz para quem sofre pode, de certa forma, fazer parte do cuidado integral de quem sofre.

 

Para fechar

Saber que a empatia varia com a situação e o ambiente ajuda quem cuida a não se sentir culpado quando, por vezes, sente sua empatia diminuir.

Uma palavra dita com cuidado pode, de fato, aliviar a dor de alguém, e isso muda o lugar de quem cuida: além de sentir junto, essa pessoa tem nas mãos um jeito real de ajudar. Fica uma certeza: mesmo num dia mais difícil, aquilo que se sente e o que se diz ainda são importantes para os que sofrem.

 

 

Andréa Portnoi, Psicóloga · Especialista em Dor
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